Boca Digital: O crack na sociedade que vivemos


 Bruna é uma amiga que me conquistou no twitter com sua foto simpática e seu olhar honesto e suave.


Bem posicionada diante dos debates que se levam na rede, me remeteu esta reflexão para que publicasse.


É um depoimento e um desafio à sociedade que construímos de forma displicente, permitindo que interesses menores, individualistas, egoístas, prevalecessem.


É um chamamento à razão, um pedido para que cumpramos nosso dever desde nossa casa, na criação de nossos filhos, filhos que estão no mundo que deixaremos para eles.


Beto.



“Mais do que COMBATER O CRACK, COMPREENDER AS RAZÕES que levam ao vício. E combater CAUSA. Polícia não. MÉDICO. #VivaSemCrack





Com essa frase do excelente Beto Mafra começo essa reflexão: a questão do crack é de quem? Quem é responsável pelo problema? Quem é o responsável por tratar esse problema? Sendo mais ampla: a questão da culpa e tratamento de drogas, lícitas e ilícitas, é de quem??? Algumas pessoas diriam que a culpa é do sistema econômico, do sistema de trabalho que temos. Outros diriam que é a questão da violência. Outros diriam que é uma questão de educação. Outros ainda de saúde pública. E alguns diriam que isso é falta de vergonha na cara.


Perde-se tanto tempo na discussão de quem é ou deixa de ser o responsável pelo problema que este nunca é devidamente identificado e pelo menos, amenizado. E pior: o problema agrava-se ainda mais, dia a dia, sob as marquises, os pontos cegos das praças, próximo às rodoviárias, estradas, as plantações de nosso país. Sim, porque agora o crack passou a fronteira urbana e é um problema de saúde pública das áreas rurais, onde seres humanos se sujeitam a pesadas rotinas laborais e para atenuar o sofrimento, a fome, solidão e tristeza se distraem em uma brincadeira fatal.


E como lidar com esse problema que ceifa vidas, destrói famílias, revela a face mais degenerada do ser humano para a manutenção do vício? Como resolver esse problema?


Sinceramente, crack e outras drogas, independente da legalidade que possuam, são uma questão de educação. E quando digo “educação” não falo apenas da educação da escola. Aliás, aprendi que na escola a gente vai pra aprender, coisas úteis e coisas que até hoje não sei pra que servem, mas tudo bem aprendi e “passei na matéria”. Então, escola é pra instrução. Quem educa é pai, mãe, avô, responsável.


Educação são os bons modos, é respeito por si mesmo e pelo próximo, é cidadania. 


Educação tem que ter amor, tem que ter sermão, tem que saber pôr limites, tem que saber reconhecer o mérito dos filhos, saber falar com eles e saber ouvi-los. A sociedade errou ao confundir e misturar instrução com educação e com isso acreditar que professores tinham que ficar com a parte mais pesada de cuidar dos filhos. Mais amplamente, acreditar que o governo tem que cuidar de seus filhos. Não é raro observar-se pais que se curvam a vontade dos filhos desde pequenos e exigir dos professores dos mesmos a educação que eles, como pais, deveriam dar.


A sociedade hoje empurra a educação, a segurança, saúde pública para governo, sistema, ou seja, lá o nome que você achar melhor definir. Vejo muitas pessoas que enchem a boca para falar de seus direitos, mas elas se esquecem que igualmente têm deveres, responsabilidades. Vamos parar de empurrar o problema das drogas para policiais, médicos, professores, psicólogos, pastores, Deus, diabo, Iemanjá, o Lula… Eles podem até terem parte no problema, mas a raiz do problema das drogas começa na família.


Pela existência ou falta dela, não importa, começa sempre nela. Portanto, é na família que precisam ser modificadas as coisas.


É necessário um novo modelo familiar, não mais aquele modelo hipócrita baseado na santidade da família, em que o chefe do lar pode fazer o que bem entender e dane-se cônjuge, filhos, mas o importante é manter o “status” de família feliz. É preciso um novo olhar sobre esse grupo de pessoas chamado família. Sim, porque família acima de tudo é um grupo de seres humanos com carências, uma série de potencialidades, comportamentos nocivos que precisam ser melhorados, com muito diálogo, sem tabus. Acredito que no dia em que o núcleo familiar agir como deveria agir metade dos problemas sociais seriam pelo menos minimizados.


Se pais e mães passassem mais tempo com seus filhos praticando algum esporte, fazendo bolo, conversando sobre banalidades, conhecendo um local bonito, indo juntos a um estádio teríamos atualmente jovens e adultos mais satisfeitos consigo próprios, mais responsáveis, menos dependentes da aceitação social e menos suscetíveis a aventurar-se no tortuoso caminho das drogas. Mas como esperamos isso com pais que deixam seus filhos sozinhos para seu próprio divertimento em jogos, em bailes, em compras, muito raramente realizando as refeições juntos?


Não estou dizendo que seja errado cuidar da vida individual após matrimônio, filhos. Está provado que manter a vida individual é bom e mais do que necessário para conservar o amor próprio. Mas tem pessoas que deixam os filhos completamente de lado. Equilíbrio é a palavra-chave. Como que queremos que daqui 20 anos nossos filhos venham visitar-nos para o almoço de domingo se não fazemos isso com eles? Como esperar que sejam bons adultos se o modelo que possuem atualmente é altamente egoísta? Como desejar que não se afundem em drogas lícitas e ilícitas se afundamos em todas? Lembrando: quem vive a base de medicamento, também é dependente químico e doente. Que moral muitos de nós terá para dizer a nossos filhos que não usem drogas se somos da geração entusiasta de diazepam, fluoxetina, clonazepam, sibutramina e outros medicamentos controlados que dominam nossas mentes e corpos? É tudo droga numa definição mais simplificada!


Entramos daí em outro ponto importante: a transferência da responsabilidade
Eu não fui criada num lar dos sonhos como algumas pessoas podem estar pensando. Meu pai é alcoólatra, tabagista, desconfio pelo comportamento violento e sem nexo que apresenta as vezes que utiliza drogas do nível do crack. Já teve crise de abstinência, já fez cirurgia, já levou porrada da polícia por conta do vício e do comportamento. Já foi internado, já foi pra retiro religioso (onde era explorado financeiramente e serviçalmente). Enfim, eu também sei o inferno que é ter um dependente químico na família e é justamente por isso que reforço a necessidade de oferecermos uma boa base familiar as nossas crianças e adolescentes. Ele não teve isso com os pais dele. Mas eu tive uma mãe excelente, que apesar das nossas rusgas vez por outra, era a mãe que eu precisava como fortaleza pra enfrentar tudo isso sem enveredar por esse caminho das drogas. Mas porque ela teve um modelo familiar diferenciado, que priorizou o ser ao ter.


Eu vejo hoje que faltam pais que priorizem o ser ao ter, que priorizem o amor ao dinheiro, o diálogo ao presente. Faltam pessoas que se indignem com a falta de educação aberrante das crianças. Faltam pessoas que sejam um bom exemplo pra essas crianças. Faltam pessoas que entendam que suprir as necessidades de seus filhos não é dar tudo o que eles querem, é sentar e conversar seriamente a real necessidade daquilo. Talvez, esse “não”, essa conversa fundamentada seja tudo o que eles querem. Talvez seja nessa conversa que eles aguardem tanto pra tirar suas dúvidas sobre porque fulano implica com ele na escola, porque não gosta de fazer trabalhos em que tenha que apresentar ao público, o porquê se apaixonou por tal menino e todas essas coisas que todos nós já passamos na vida, angustiamo-nos, ficamos com vergonha, cheios de dúvida, esperando alguém vir conversar com a gente.


Eu ainda não tenho filhos, ainda (apesar do medo) desejo ter alguns e fico pensando que tipo de mãe eu vou ser nesse mundo louco. Sou de uma geração que viveu cercada por cartazes de crianças desaparecidas, ouvindo que não se pode conversar ou aceitar coisas de estranhos, ouvindo que era pra tomar cuidado com potenciais transfers que vinham em doces com LSD, vi casos bárbaros de abuso sexual, de violência contra criança, contra mulher, contra homossexuais, contra animais. Tudo isso dá muito medo e eu tenho medo disso para os meus filhos. Em contrapartida, vejo que pessoas que sempre tiveram uma pessoa como referencial familiar forte raramente se envolvendo nessas situações de perigo, muitas vezes, sendo aqueles que ainda se indignam e lutam por tudo isso e me fazem refletir que o problema não é o mundo, mas as pessoas que deixamos pra ele.


O texto foi longo, mas pense, reflita, verifique qual é seu papel nessa questão das drogas. Pense se você tiver filhos, sobrinhos; pense no tipo de educação sobre o assunto você tem passado a eles, se vocês têm conversado. Pense se você não tem filhos, se quer ter ou não.


Pense no seu papel no seu trabalho, na sua comunidade, acredito que qualquer um pode ser vitima do problema. E muito mais que pensar, aja, trabalhe, procure conhecer o que tem sido feito para a prevenção, como você pode ajudar (e não pense que ajuda é somente ajuda financeira) e se não tem, cobre, exija e faça valer seus direitos de cidadão no tocante ao controle e tratamento das drogas.


Você não precisa ser médico, psicólogo, policial, presidente ou Deus para mudar o mundo, mudar o problema do crack e qualquer outra droga, basta exercer sua cidadania a começar por dentro do seu lar.


Um grande abraço


Bruna Belatriz Rosa Brasil

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