A Porta do Inferno – Por Conceição Lemes



Conceição Lemes

Ambulatórios superlotados fazem a mais conhecida imagem do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e do Hospital São Paulo, da Unifesp/Escola Paulista de Medicina. Afinal, são o retrato diário da porta 1 dos respeitadíssimos complexos hospitalares da capital paulista, centros de excelência em ensino, pesquisa e assistência reconhecidos em todo o país. É pela porta 1 que entram os usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). Os dois hospitais têm, porém, outra entrada menos visível, sem filas e em preocupante processo de expansão: a porta 2, restrita aos convênios e pacientes particulares. Em média, 10% do 1,5 milhão de atendimentos ambulatoriais realizados anualmente pelo HC/FMUSP e do 1 milhão pelo HSP/Unifesp/EPM acontecem através da segunda porta; em algumas unidades, isso já ultrapassa 20%.

NoMínimo investigou a dupla porta nessas instituições públicas durante três meses. Como milhares de pacientes do SUS, a repórter peregrinou pelos serviços, ficou em filas, pendurou-se no telefone com o objetivo de obter informações sobre vagas para consultas médicas e exames. No dia em que conseguia uma vaga pela entrada destinada ao comum dos mortais, a repórter ligava para o setor de convênios e particulares, indagando sobre a data mais próxima para um atendimento idêntico. A avaliação diz respeito apenas aos ambulatórios, não envolve doentes internados nem os de prontos-socorros.

Resultado: as desigualdades vão além de filas exibidas pela TV, da separação de portarias, alas e consultórios, das madrugadas em guichês para pegar senhas, do destrato de funcionários e, como era de se esperar, dos diferenciados serviços de hotelaria. Numa mesma instituição, doenças iguais podem ser diagnosticadas e tratadas com meses e até mesmo um ano de diferença. Na melhor das hipóteses, o paciente SUS demora mais para descobrir o que tem ou para começar o tratamento.

Tomografia da desigualdade

“O agendamento da tomografia está suspenso, o aparelho quebrou”, informa, no início de março, a recepcionista da portaria SUS do Instituto de Radiologia do HC, que possui três tomógrafos para atender ambulatórios, convênios e pagantes. “Tente no final do mês”, recomenda em tom pouco amistoso. A repórter retornou em 29 de março e em 29 de abril e nada. Em 10 de maio, novidades: Tomo de crânio está marcando, mas só de pedidos feitos até janeiro; a de abdômen, não”. Em 1o de junho, a dura perspectiva: “Estamos marcando tomo de crânio, abdômen, pulmões, mas apenas de solicitações feitas no mês de janeiro, pra daqui a 45 a 60 dias. As de fevereiro, março, abril, maio, não”.

Nesse período, uma triste coincidência: no dia 19 de abril, enquanto lá dentro, exultante, o governador Geraldo Alckmin inaugurava o novo parque de equipamentos da Radiologia do HC (que incluirá mais um tomógrafo), cá fora os pacientes SUS ouviam “não” para pedidos de exames como ultra-som de mamas e tomografia. “Desde janeiro, tento marcar tomografia de face e pulmões, é a quarta vez que venho, a condução pesa no bolso”, queixa-se Dirce*, 52 anos, faxineira. “Transferi a consulta de abril para maio por falta do exame. Agora, mesmo sem tomografia, vou passar no médico. O que fazer, né?”

Se tivesse convênio ou pudesse pagar o exame, ela andaria uns 400 metros e agendaria na porta 2 da Radiologia do HC. NoMínimo fez o teste quatro vezes: a tomografia computadorizada se realizaria em, no máximo, três dias úteis, inclusive a de abdômen. Em duas ocasiões, até no dia seguinte, como se pode conferir no quadro Radiografia da desigualdade. Detalhe: seria nos mesmos tomógrafos “quebrados” ou “em manutenção” para pacientes SUS.

A situação se repete no Hospital São Paulo da Unifesp/EPM, com dois tomógrafos, um quebrado do início de março até o dia 28 de junho. “As tomografias estão suspensas”, lamenta a funcionária do setor SUS. Na porta 2, porém, há horário para fazê-las em dois, três dias. Mágica: o aparelho bom é para uso do pronto-socorro (indiscutível), convênios e particulares. “Pacientes SUS entram pelo 715 da rua Napoleão de Barros”, ensina um funcionário. “Os de convênios, pelo 737”, orienta outro. Um corredor interno liga as duas portarias. Uma porta de vidro trancada separa os pacientes. Seguranças de plantão abrem-na quando conveniados precisam fazer o exame, pois os tomógrafos estão instalados no lado SUS, justamente na área dos sem-tomografia nos últimos quatro meses. Não é a única ironia dessa história.

Casa dos martírios

 

Rua Pedro de Toledo, 719, setor de marcação da primeira consulta da maior parte dos ambulatórios do Hospital São Paulo. É uma autêntica “casinha dos martírios”, tal a grosseria de algumas atendentes. “Cardiologista? Não está marcando. Volte em junho”. É assim que uma delas, em 31 de março, despacha Sonia, 54 anos, doméstica; era a segunda vez no mês. “Mas minha mãe tem quase 80 anos, está com problema no coração”, invoca. Apelo ignorado, Sonia insiste: “Mas eu gostaria de saber…”. É interrompida aos gritos: “Volte para o final da fila se quiser outra informação”.

Dona Vera, 68 anos, aposentada, é a próxima. Sente dores em todo o lado direito do corpo e o coração dispara. O cardiologista prescreveu consulta com reumatologista. “Não é aqui a marcação”, resmunga a atendente. “Mas foi o guarda quem me mandou ficar na fila para…” “Já disse que não é aqui”, corta a funcionária e solta outra patada. “Nós com tanto serviço e ainda vem gente encher o saco.” A informação do segurança estava errada. Humilhada, a idosa se arrasta até a sala indicada: o pronto-atendimento de reumatologia está fechado para reforma; consulta, só a partir de maio (posteriormente, adiada para junho). “Há noites que passo me arrastando no chão, não consigo posição para dormir. Jesus, o que vai ser de mim?” – desespera-se. João, colega de fila, também. Era a terceira tentativa frustrada para agendar uma consulta para glaucoma. “Quando eu ficar cego, não precisa mais”, desabafa.

No setor de convênios, as duas senhoras teriam atendimento em um mês. Já João, em cinco dias úteis, no Instituto da Visão da Unifesp, rua Botucatu, 824. No 820, fica a entrada SUS, que Laura conhece bem. Em julho de 2003, a triagem da oftalmologia encaminhou-a ao setor de glaucoma. Mas só em março de 2004, a mãe, dona Ivonete, conseguiu agendar consulta – para abril. “A médica mediu a pressão ocular, disse que seriam necessários mais exames para confirmar a suspeita de glaucoma juvenil, mas não havia vaga para casos novos”, relata Laura. A recomendação à garota parece gozação: passar lá todo mês para saber quando abriria vaga; se em um ano não conseguisse, retriagem no glaucoma. Em 27 de maio, a agenda para casos novos foi aberta, dona Ivonete passou mais uma noite na fila e obteve consulta para junho. “É malvadeza com a gente, por que não marcaram no dia da triagem do glaucoma?” – revolta-se. “Essa luta dura quase um ano!”

Um consultório particular

 

Outros paradoxos em órgãos do complexo Unifesp/EPM: no Instituto do Sono, paciente SUS tem de “dormir” na fila para agendar consulta; no Hospital do Rim e Hipertensão, desde março não há vagas para casos novos de pressão alta. “Procure o posto de saúde, o pronto-socorro ou a triagem do Hospital São Paulo, não há previsão para a reabertura de vagas”, diz, polida, por telefone, a atendente da clínica de hipertensão do Hospital do Rim. A recepção do ambulatório confirma. No início de maio, Joana foi pessoalmente tentar a consulta para o marido, Severino, que não possui um rim (perdido devido a cálculo renal) e tem pressão arterial 22 por 17. “A pedido deles, deixei lá o encaminhamento pra ver se o médico responsável autorizava marcar”, conta. A resposta prometida para a mesma semana foi dada no final de maio: “A marcação não foi aprovada; o senhor deve procurar o posto de saúde.” É um absurdo, pois pressão 22 por 17 é hipertensão severa, o que significa grande risco de infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC) e lesão do outro rim. Em compensação, na seção de convênios, Severino já teria se consultado, com retorno em vista.

O flagrante do Instituto do Sono é de 5 de abril, único dia em que se podem agendar consultas para o período maio/setembro. São 8h45, a fila dobra a rua, os primeiros pernoitaram no local. A recepcionista percorre a fila e distribui as senhas limitadas. O segurança da Unifesp segue atrás, avisando: “Quem chegar agora pode ir embora; ligar só em julho, pra saber quando vai marcar de novo”.

Dona Clara, 54 anos, aparece minutos depois, fica com a senha da repórter. “É a terceira vez que tento”, levanta as mãos ao céu a senhora com seqüelas visíveis de AVC. “Passo duas, três noites sem dormir; quando cochilo, acordo com o meu ronco, que atrapalha também marido e filho.” Após quase quatro horas em pé, sob sol de rachar, a consulta é marcada para o final de setembro pela recepcionista da porta SUS. “Particular e convênio não é aqui, não”, responde, rapidamente, a mesma funcionária, e dá dois telefones à acompanhante repórter, que os acionou imediatamente.

Um é do pomposo prédio ao lado, onde são feitas as polissonografias (exame para detectar distúrbios de sono) de pacientes da porta 2. O outro é de um consultório, o mesmo fornecido quando se liga para o número impresso no cartão do Instituto do Sono/Unifesp. Para lá são encaminhadas todas as solicitações de consultas particulares e convênio. “Se o problema for ronco, tem horário para 12 de abril; insônia, 10 de maio”, informa a atendente da porta 2. Ou seja, se tivesse convênio ou pudesse pagar a consulta, dona Clara seria atendida quatro oucinco meses antes. O consultório nada mais é do que a clínica particular de médicos do grupo de sono da Unifesp. É o uso da prestigiosa grife pública em benefício do negócio privado.

Dois pesos e duas medidas

 

No Complexo HC/FMUSP, também é só bater de unidade em unidade para a radiografia da desigualdade ir se revelando:

– Instituto de Ortopedia e Traumatologia, 28/abril – Fisioterapia pós-fratura é apenas para casos tratados no próprio serviço; não atende pacientes encaminhados pela rede pública. “Nem os da região de Pinheiros (bairro onde está situado o HC)”, frisa a funcionária do agendamento SUS. Basta, porém, subir um andar e as restrições acabam. “Claro que não precisa ter sido atendido na Ortopedia para fazer fisioterapia aqui”, espanta-se a atendente de convênios. “O pedido médico pode ser enviado por fax. Em no máximo dez dias o tratamento começa.”

– Instituto da Criança, 29/abril – Na porta 1, a primeira consulta para alergia (triagem no setor de imunologia) está sendo agendada para o final de outubro; convênio ou particular, dali a 20 dias.

– Instituto do Coração, 28 de maio – Às 10h50, a atendente do 0800 do Incor SUS informa: “Hoje não há mais vagas para triagem. Ligue novamente na segunda. Se a senhora conseguir falar, estaremos agendando para 9 de junho.” Minutos depois, na porta 2, de pronto, há horário para a primeira consulta: “Particular, amanhã (sábado) ou segunda; convênio, na segunda”.
Triagem, primeira consulta ou consulta cardiológica preliminar são sinônimas. A de Geraldo, 60 anos, ambulante, cego de uma vista por glaucoma, pressão arterial 21 por 16, angina (dor no peito) ao fazer esforço, aconteceu oito dias úteis (para o SUS, sábado inexiste!) após o agendamento. “O médico me examinou, fiz chapa (raios X de tórax), eletrocardiograma e exames de sangue; voltei três dias depois, o médico passou os remédios”, conta Geraldo, recém-matriculado na unidade de aterosclerose. “Meu coração está grande, a pressão não baixa. Tenho retorno em novembro.”

Nas unidades de coronária, hipertensão e arritmia do Incor, os retornos estão sendo agendados, em geral, para daqui a um ano – prazo acima do freqüentemente prescrito a quem tem insuficiência cardíaca: no começo do tratamento, retorno a cada 15 ou 30 dias; depois, com a situação sob controle, a cada três ou quatro meses. Talvez fosse a orientação dada a Geraldo se ele fosse paciente da porta 2. Na mesma época, Eliane, 41 anos, ajudante geral e hipertensa, não foi além da triagem: “O médico mediu a pressão, ouviu o coração, passou remédio e mandou fazer acompanhamento no posto.”

Eliane tem o que os médicos chamam de hipertensão leve – sua pressão oscila de 15 por 9 a 16 por 10. É um quadro simples comparado ao de Geraldo, grave e complicado. Daí, ter sido redirecionada para o posto de saúde. Essa assistência diferenciada faz parte do sistema em implantação não apenas no Incor, mas em todo o Complexo HC/FMUSP: atender principalmente os casos de alta complexidade, deixando os de baixa e média dificuldade a cargo do restante da rede pública de saúde. Tudo bem se não houvesse distinção na sua adoção: a hierarquização vale para os pacientes SUS. Para os de convênios e particulares, não.

‘Melhor procurar outro lugar’

Prédio dos Ambulatórios do HC/FMUSP, 5o andar, sala 5, 30 de março. A hierarquização do atendimento está em andamento na clínica de Urologia, e a infecção urinária feminina é um dos alvos. No agendamento, a atendente é explícita:

— Não estamos atendendo casos de infecção urinária em mulher. Novas consultas estão suspensas; é problema para tratar em posto de saúde.

— Mas não vai abrir vaga?

— Não, a gente está se adequando ao novo sistema do HC. Só vamos cuidar de problemas mais complexos, como cálculo renal (pedra nos rins), tumores e o grupo de criança.

— E infecção urinária em homem?

— Se ele estiver na faixa dos 50/55 anos, vai para o grupo de próstata e, aí, será dispensado, pois está lotado até o final de 2004.

— Mas a pessoa tem cartão do HC…

— Não adianta, não tem como matricular agora.

Em 3 de junho, outro balde de água fria:

— Primeira consulta para próstata? Só em junho de 2005, acho melhor procurar outro lugar.

Oswaldo, desempregado, fica arrasado: “Que adianta passar na triagem se não há vaga para tratamento? O pessoal do posto de saúde me empurrou pra cá, daqui me empurram para os quintos dos infernos.”. No sexto andar, sala 8, Elias, com encaminhamento para o setor de glaucoma, baqueia: “Oh, meu Deus, vaga para primeira consulta só em fevereiro!” O agendamento da Oftalmologia confirma: “Não é piada, não!”

Na porta 2, Elias teria horário em um mês; Oswaldo e as Marias com infecção urinária, em duas semanas. O vigia Francisco e a diarista Edileuza também seriam logo atendidos. Ele, “com alguma coisa no estômago”, tentando fazer endoscopia desde fevereiro, quando a marcação foi suspensa no ambulatório SUS. Ela, sofrendo com ondas de calor e alterações de humor decorrentes do climatério. Edileuza acordou às 4h, saiu de casa às 5h, tomou duas conduções e às 7h30 estava no Ambulatório de Ginecologia para a triagem agendada. Passava das 13h quando entrou para a consulta. “Fui encaminhada para o grupo de climatério, mas não tem vaga para tratar agora; o jeito é esperar, a gente é pobre”, resigna-se. No guichê, a justificativa: “Climatério é o mais procurado; vaga para primeira consulta só em maio de 2005.” Durante março e abril, outra má notícia logo na porta de entrada do ambulatório: Vagas encerradas para ultra-som transvaginal e pélvico; voltar após 7 de junho para marcar. Na porta 2, porém, esses exames seriam realizados em menos de uma semana.

Na ocasião, dona Zuleika, 64 anos, aposentada, cardíaca, batalhava um ultra-som doppler de rim. Na primeira tentativa, chegou às 10h, as senhas haviam acabado. Na segunda, madrugou na portaria, agendou para setembro. “Ainda bem”, conforta-se a ex-tecelã e ex-diarista, como se a assistência fosse caridade e não direito seu. “Minha urina é espumosa, o médico acha que é pedra nos rins.” Na saída, cruza com a lívida Sueli, que, passando mal, se escora numa mureta da Radiologia do HC: “Não estou agüentando… Vou fazer enema pra saber se tenho Chagas e estou sem comer por causa do exame. Moro longe, cheguei mais cedo e o segurança não deixa entrar enquanto não for a hora”.

Eis algo inimaginável na vizinha porta 2. Além de recebida com salamaleques, Sueli teria respeitada a dignidade. Dona Zuleika agendaria o ultra-som para a semana seguinte com um telefonema. Não é à toa Sonia (aquela que levou um esbregue na casinha dos martírios) está mais temerosa desde 31 de março, quando descobriu que o HSP/Unifesp/EPM atende convênios e particulares. “Mais essa agora!”, raciocina. “A gente perde o dia pra marcar, perde o dia pra se consultar, jogam a gente de um lado pra outro. Agora, atendendo convênio, é que a gente vai se ferrar de vez. O que vai ser do pobre no futuro?”

MP condena dupla porta

A propósito: o sistema “dupla porta”, iniciado pelo Incor-SP, gradativamente avança por todo o estado e o restante do país. Até em hospital da Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo, como o Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, ele existe. NoMínimo tentou ouvir o secretário de Saúde do Estado de São Paulo, dr. Luiz Roberto Barradas Barata, sobre o assunto, mas ele alegou indisponibilidade na agenda. A Secretaria apenas informou: “Outros hospitais públicos no Brasil fazem a mesma coisa. Não há lei que proíba o atendimento de convênios e particulares.”

O Ministério Público do Estado de São Paulo discorda. “A dupla porta é ilegal”, sustenta o promotor Reynaldo Mapelli Júnior, do Grupo de Atuação Especial da Saúde Pública e da Saúde do Consumidor. “Numa instituição que recebe dinheiro público, é inconcebível que se atenda imediatamente quem paga enquanto o paciente SUS é obrigado a encarar meses de fila de espera.” No seu entender, o atendimento diferenciado caracteriza privilégio e transgride a Constituição Federal e a Lei estadual no 10.241, de 11 de setembro de 2001. Esta proíbe a discriminação na qualidade da assistência, em listas de agendamento, filas de espera, separação de guichês, salas de estar, portas de entrada e saída; é extensiva a autarquias, institutos, fundações, hospitais universitários e demais instituições públicas ou privadas que, a qualquer título, recebam recursos do SUS.

“A dupla porta é excrescência, e os serviços públicos no estado de São Paulo que a adotam estão fora da lei”, diz o hoje deputado federal Roberto Gouveia (PT-SP), autor do projeto que originou a lei paulista, aprovada na Assembléia Legislativa por acordo entre todos os partidos. Mapelli frisa: “Não somos contra o tratamento de conveniados e pagantes. O problema é a diferenciação do atendimento no dia-a-dia”.

Médicos defendem modelo

 

Na prática, é como se essa a legislação inexistisse. “Sem esse dinheiro extra, estaríamos atendendo pacientes SUS em menor quantidade e de maneira menos adequada”, justifica José Manoel de Camargo Teixeira, superintendente do Complexo HC/FMUSP. Ele justifica: “Conveniados e pagantes não tomam o lugar do atendimento SUS, são agendas diferentes. Além disso, eles têm direito ao SUS. Logo, serão atendidos de qualquer maneira”.

O David Uip, diretor executivo do Incor, argumenta: “Sem essa verba, fecho o hospital, os 21% de conveniados e particulares representam 50% do nosso faturamento.” O dr. José Roberto Ferraro, superintendente do HSP/Unifesp/EPM, provoca com elegância: “Você já viu fila de convênio ou particular? Mesmo que interrompêssemos hoje o atendimento privado, as filas de espera do SUS continuariam, pois a demanda é muito maior”.

Essas instituições, vale lembrar, foram construídas e equipadas com recursos públicos e, às custas do discurso de que é preciso atender mais o “público”, prosseguem conquistando verbas. E é exatamente o lado público a vítima das diferenças. “Meu objetivo é que todos cheguem ao mesmo destino, à mesma hora, da mesma forma”, defende Uip, ao comparar o Incor a um superavião. Quem pode ou quer pagar vai de primeira classe; quem não pode pagar ou não quer vai de executiva. Mas o que dizer da maior demora para o paciente SUS se consultar, fazer exames e ter retornos? O médico dobra-se: “As filas de espera são o que restaram da classe econômica, e isso está longe do ideal. Mas, do ponto de vista de assistência propriamente dita, os resultados são iguais”.

O uso de tecnologias de ponta e a qualidade dos resultados dos procedimentos são indiscutíveis. A questão é que, nas mesmas instituições públicas, pacientes SUS têm diagnóstico e tratamento mais tardios do que conveniados ou particulares para males idênticos. E aí está o x do problema, colocado às suas respectivas direções: a desigualdade representa prejuízo à saúde do paciente SUS?

“Na área de sono, a maior demora não é grande problema, é mais um incômodo, não uma situação de emergência”, legitima, com naturalidade chocante, Sérgio Tufik, responsável pelo Instituto do Sono e vice-reitor da Unifesp. Em se tratando de doença oftalmológica grave, é claro que o caso pode se tornar irrecuperável se o paciente esperar muito na fila, admite Ana Luisa Höfling Lima, do Instituto da Visão/Unifesp. “Mas, na medida do possível, o prejuízo à saúde é minimizado com esquemas de triagem”, defende. “Por exemplo, se a pessoa tem catarata, em vez de ser operada amanhã pelo convênio, será daqui a três meses. São mais três meses de visão ruim que ela terá.”

José Osmar Medina Pestana, do Hospital do Rim e Hipertensão, tergiversa: “Se esse paciente tivesse mais educação, também estaria em menor risco, pois procuraria antes o serviço. Isso se aplica igualmente ao dentista: se a pessoa demorar para procurá-lo, perder o dente é uma das possibilidades.” Na sua vez, Camargo Teixeira escapa pelo tradicional “cada caso é um caso, é difícil discutir no terreno das hipóteses”. Ferraro sai por outra tangente: “Sempre haverá prejuízo à saúde se, em vez de eu atender hoje, atender daqui a seis meses, mesmo que não haja o sistema privado.” Uip ressalva: “Mas, se houver gravidade, conveniados, particulares e SUS serão atendidos em tempo igual.”

Moral da história da dupla porta: 1. Conveniado ou particular é potencialmente sempre caso de “urgência”; 2. Ter a “sorte” de chegar mal à emergência ou passar todo estropiado por um dos esquemas de triagem são a única chance de o paciente SUS ganhar o carimbo “urgente” e ser atendido logo.

Cidadãos de primeira e de segunda

 

A questão preocupa muito os bioeticistas. Para Volnei Garrafa, presidente da Sociedade Brasileira de Bioética, a dupla porta é um paradoxo insustentável. “Não é ética nem moral, cria cidadãos de primeira e de segunda classe”, considera. “Como em tudo, os pobres são os mais vulneráveis; portanto, fatalmente os mais prejudicados.”

Gabriel Oselka, coordenador do Centro de Bioética do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), é menos radical. Partindo do pressuposto de que os recursos extras permitiriam assistir melhor os menos favorecidos, ele aceita a porta 2 desde que a desigualdade não ultrapasse a hotelaria. “Se interferir na qualidade da atenção à saúde, torna-se inegociável”, delimita. Na sua opinião, são inaceitáveis, por exemplo, a diferença refletir na qualidade de vida, na dor ou no sofrimento; não fazer determinado exame que permitiria prevenir ou tratar imediatamente uma doença; dispensar ou retardar atendimento de situações em que há suspeita de problema grave.

A dupla porta, portanto, é um problema que se espalha pelas instituições públicas de saúde do Brasil inteiro, cada qual adotando um modelo “à moda da casa”. O Conselho Nacional de Saúde e o Congresso Nacional têm de entrar já e seriamente nessa discussão, por ora restrita. “A dupla porta é uma ladeira escorregadia”, alerta Oselka. “A tendência, com os recursos escassos, é o sarrafo ir mudando de posição.” Resultado: mais diferenças de doer.

* Todos os nomes de pacientes ou familiares citados nesta reportagem foram propositalmente trocados, para lhes evitar constrangimentos nas instituições.

Caso tenha dificuldades na visualização da tabela baixe aqui >>Radiografia da desigualdade

Radiografia da desigualdade

As informações de pacientes SUS foram obtidas em visitas às unidades pesquisadas; as de conveniados e particulares, por telefone. As consultas referem-se à primeira a ser feita nesses serviços. Na “porta 1”, o pressuposto, na maioria das vezes, era de que a pessoa tinha cartão e encaminhamento médico dos respectivos complexos hospitalares.

Instituição

Unidade

Consultas(*) e exames (**)

Data da pesquisa de NoMínimo

Previsão de vagas para atendimento de pacientes ambulatoriais

Porta 1 (SUS)

Porta 2 (convênios e particulares)

Complexo Hospital das Clínicas (FMUSP)

Instituto Central

Cálculo renal*

30 de março

Outubro

16 de abril

3 de junho

Novembro

17 de junho

Infecção urinária*

30 de março

Suspensas novas consultas para mulheres; homens são encaminhados ao grupo de próstata, que está fechado para novos agendamentos

12 de abril

3 de junho

Situação inalterada quanto à infecção urinária; próstata, agendamento para junho de 2005

17 de junho

Climatério*

4 de maio

6 de maio, vaga para triagem na ginecologia. Para consulta no grupo de climatério, só em maio de 2005

27 de maio

Glaucoma*

29 de abril

Novembro/dezembro

2 de junho

3 de junho

Fevereiro de 2005

7 de julho

Tomografia adulto**

29 de março

Agendamento suspenso

30 de março

29 de abril

Agendamento suspenso

3 de maio

10 de maio

Reiniciada marcação para regiões como o crânio. Abdômen, não

13 de maio

1 de junho

Agendamento apenas para pedidos médicos feitos em janeiro

2 de junho

Mamografia**

29 de março

Junho

5 de abril

Ultra-som de mamas**

29 de março

Agendamento suspenso

5 de abril

29 de abril

Agendamento suspenso

4 de maio

10 de maio

Agendamento suspenso

11 de maio

28 de maio

Agendamento suspenso

3 de junho

Ultra-som transvaginal**

29 de março

Vagas encerradas; retornar após 7 de junho para marcar

2 de abril

Ultra-som pélvico**

29 de março

Vagas encerradas; voltar após 7 de junho para marcar

6 de abril

Ultra-som doppler de rim**

29 de março

Setembro

5 de abril

Enema opaco**

29 de março

Julho

2 de abril

Endoscopia**

30 de março

Marcação suspensa desde fevereiro

8 de abril

4 de maio

Marcação continua suspensa

7 de maio

3 de junho

Marcação continua suspensa; aparelhos “quebrados”;  talvez volte a marcar em julho

8 de junho

Incor

Primeira consulta*

19 de abril

30 de abril (consulta preliminar para triagem)

20 de abril

7 de junho

17 de junho

7 de junho

Eletrocardiograma simples**

30 de março

30 de março

30 de março

Eletrocardiograma de esforço**

30 de março

Maio

31 de março

Ecocardiograma**

30 de março

Vagas para 2005;  excepcionalmente no final de 2004

13 de abril

Cintilografia miocárdica**

30 de março

Agosto

7 de abril

Instituto da Criança

Alergia*

29 de abril

27 de outubro (triagem no setor de imunologia)

20 de maio

Instituto de Ortopedia e Traumatologia

Fisioterapia pós-fratura

29 de abril

Apenas para casos tratados de fratura no Instituto

Início dez dias após envio do pedido médico

Complexo Hospital São Paulo (Unifesp/EPM)

Hospital São Paulo

Cardiologia*

31 de março

Não está agendando; voltar no início de junho para saber quando agendará para julho/agosto/setembro

30 de abril

Reumatologia*

31 de março

Em reforma, atendimento a partir de maio

23 de abril

29 de abril

Nova previsão: junho

6 de maio

Próstata*

5 de maio

Não há vagas até dezembro

7 de maio

Tomografia de adulto**

5 de abril

Marcação suspensa

8 de abril

4 de maio

Marcação continua suspensa

7 de maio

3 de junho

Marcação continua suspensa, sem previsão para reinício

8 de junho (tanto crânio quanto abdômen)

Ressonância magnética de abdômen**

4 de maio

Agendamento fechado; não há vagas

10 de maio

Cintilografia miocárdica**

5 de abril

Junho/julho

8 de abril

Eletrocardiograma de esforço**

5 de maio

Marcação em 2 de junho; para exames em julho/agosto/setembro

11 de maio

Mamografia**

5 de abril

Não agenda; faz na hora (das 8h às 14h); laudo demora 20 dias úteis

6 de abril; laudo em uma semana

4 de maio

Marcação suspensa há três semanas; reiniciada em 10 de maio

7 de maio

Ultra-som de mama, pélvico ou transvaginal**

5 de abril

Consultas feitas em janeiro/fevereiro, marcação para junho/julho; para as de março, agendamento fechado (abertura em maio)

13 de abril

Ultra-som de rim**

5 de abril

Para consultas ocorridas em janeiro/fevereiro, vaga para julho; para as de março, agendamento fechado (abertura em maio)

14 de abril

Endoscopia**

5 de maio

Marcação em 2 de junho para realização em julho/agosto/setembro

10 de maio

Hospital do Rim e Hipertensão

Hipertensão*

31 de março

Não tem vagas

8 de abril

5 de maio

Não tem vagas, sem previsão de abertura

17 de maio

Instituto do Sono

Insônia/ronco*

5 de abril

Segunda quinzena de setembro 12 de abril (ronco); 10 de maio (insônia)

31 de maio

Marcação em julho para consultas em outubro/novembro/ dezembro 16 de junho (insônia ou ronco)

Polissonografia**

5 de abril

10 de junho

10 de maio

12 de abril

16 de junho

17 de abril

Instituto da Visão

Glaucoma*

31 de março

Não está marcando

8 de abril

4 de maio

27 de maio, agendamento para junho, julho e agosto

13 de maio

Fonte: Quadro Anexo à matéria “A Porta do Inferno“, de Conceição Lemes,

01 de Julho de 2002, http://nominimo.ibest.com.br/notitia/reading/exemplum/reading/pdf/tabela.htm

 

 

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