O Holocausto brasileiro

Encontro em Itu ontem reuniu famílias separadas compulsoriamente por portarem a hansenía

Gilson Hanashiro/Agência BOM DIA O analista de recursos humanos Emanuel Rodrigues é ativista e voluntário na Mohran: luta contra o preconceito O analista de recursos humanos Emanuel Rodrigues é ativista e voluntário na Mohran: luta contra o preconceito

Tiago Cavalcante
Agência BOM DIA

Milhares de pessoas participaram neste domingo (20), no Centro Esportivo Cultural e Lazer do Pirapitingui, em Itu, do 1º Encontrão dos filhos que foram separados pelo isolamento compulsório do Estado de São Paulo.

O evento, realizado pelo Morhan (Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase), buscou reunir o maior número de pessoas para uma confraternização. O objetivo também era manter a unidade do movimento, que busca reconhecimento do público e do Governo Federal a respeito do “holocausto” vivido com a separação dos pais e filhos.

Para Emanuel Rodrigues, 38 anos, membro da Morhan, o Encontrão  foi  o maior evento já realizado em prol da reintegração de pessoas com hanseníase e do combate ao preconceito. “Essas duas gerações que unimos foram arrancadas dos braços de seus pais e familiares”, diz. “Foram internados em orfanatos que chamavam de educandários e nunca mais se viram”, acrescenta.

Ainda segundo Emanuel, é raro os reencontros, pois  muitos foram adotados por estrangeiros  e nem desconfiam de suas origens.

Outro fato importante é que poucos tiveram uma adoção regular e responsável. “A maioria deles foi morar com estranhos, serviu de empregados, foi abusado na infância ou adolescência e depois jogado na rua”, lembra Emanuel.

Relatos de pais ainda vivos, contam que muitos recém-nascidos morriam  logo depois porque eram retirados de suas mães imediatamente após o parto. Eles eram “desinfectados” e levados às pressas para os educandários. Como muitas instituições  eram longe das cidades, eram levados a pé e uma boa parte do caminho era feito com essas crianças dentro de cestos, o que facilitava e acelerava os óbitos.

Muitos pacientes, ativistas e pessoas engajadas na luta contra a hanseníase chamam este período de “holocausto brasileiro”, lembrando que  entre as décadas de 1930 e 1970 se formaram  colônias para isolá-los da sociedade que, na visão de Emanoel, “pareciam com campos de concentração”.

Indenização / “O que se pleiteia agora é uma indenização  junto ao Governo Federal para os filhos que foram separados dos seus pais”, diz o membro da Morhan.

No evento deste domingo (20) foi assinado o termo de indenização ou pensão vitalícia para os filhos da última geração de portador da doença, solicitado ao Governo Federal. “É um marco na história da hanseníase no Brasil.” Estiveram presentes ao encontrão representantes da Previdência Social, dos Ministérios de Direitos Humanos, Saúde, entre outros nomes dos governos federal, estadual e municipal
Sem fins lucrativos
A entidade Morhan foi fundada em 6 de julho de 1981, com sede administrativa no Rio de Janeiro, e está presente em  de 100 comunidades pelo Brasil.

Voluntários
Seus colaboradores são pacientes, ex-pacientes e pessoas interessadas em ajudar.

Contatos
Telefones: (21) 2502-0100
2502-0074
Site: www.morhan.org.br

Leprosários são construídos para isolar os doentes
No Brasil, os primeiros leprosários datam da época da colonização e foram construídos com o intuito de isolar os doentes. Com o tempo, esses locais se tornaram cidades, quase que auto-suficientes com prefeitura, comércio, escola, igreja, delegacia e cemitério.

Por outro lado, os leprosários  eram situados em locais de difícil acesso, todas com muros e cercas altas, com os portões permanentemente fechados e com guardas, alguns armados, sendo que parte deles, era recrutado entre os próprios portadores da doença e tinha a função de capturar fugitivos e novos enfermos.

Foi o atual governador do Acre, Tião Viana (PT), na época senador, que iniciou o texto da carta de justificativa para o então projeto de lei nº 206/06.

O documento visava a criação de uma lei que concedesse pensão vitalícia às pessoas internadas compulsoriamente nos 33 ex-hospitais colônia brasileiros até o ano de 1986, ou seja, os pais  da última geração de portadores da doença.

A partir desta iniciativa, deu-se início a uma jornada  que culminou na assinatura de uma medida provisória pelo então presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT) que se emocionou com os depoimentos de pessoas com hanseníase. Depois se transformou em decreto de lei 11.520.

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1 comentário
  1. Vamos nomear como Ministro da Saúde o Alberto Granado, pelo menos de hanseníase, ele, e seu finado amigo Che Guevara, entendiam muito bem.
    Blog de ótima ajuda social.
    Abraços

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